terça-feira, 10 de abril de 2012

Mimimi do Mito II

MOYERS: Você mudou a definição de mito, de busca de sentido para experiência de sentido.

CAMPBELL: Experiência de vida. A mente se ocupa do sentido. Qual é o sentido de uma flor? Há uma história zen sobre um sermão do Buda, em que este simplesmente colheu uma flor. Houve apenas um homem que demonstrou, pelo olhar, ter compreendido o que o Buda pretendera mostrar. Pois bem, o próprio Buda é chamado “aquele que assim chegou”. Não faz sentido. Qual é o sentido do universo? Qual é o sentido de uma pulga? Está exatamente ali. É isso. E o seu próprio sentido é que você está aí. Estamos tão empenhados em realizar determinados feitos, com o propósito de atingir objetivos de um outro valor, que nos esquecemos de que o valor genuíno, o prodígio de estar vivo, é o que de fato conta.

Tá bão.
Mas não é o suficiente.
Não consigo me conformar com simplesmente lay back and enjoy the ride, como diria Sam Crow no citado anteriormente American Gods.
Mas deve ser a falta de remédio no sangue.

Mimimi do Mito I

Vai pra três anos que eu comprei O Poder do Mito e só dei uma folheada pra ler sobre os heróis. Engraçado como o Campbell fala sobre o papel do herói ou o que constitui um. Eu não terminei de ler o livro, pra ser sincera nem a primeira parte, mas é interessante o quanto ele bate na tecla da comunidade, de pertencer a um todo, de participar da sociedade. Pra ele, no meu entender, a sociedade deve oferecer suporte ao homem pra que ele um dia faça parte desse pilar que vai suportar uma nova leva de homens e por aí vai. A mitologia seria a linguagem que essa sociedade usa pra passar os valores necessários e o motivo de vivermos nessa discórdia de hoje em dia seria a ausência de mitologias válidas e adaptadas a realidade atual, o que de certa forma eu concordo, visto que todos os dias a geração passada quer fazer a juventude engolir idéias que não servem mais as necessidades do agora.
Por mais que eu tenha a sensação de compreender o que ele quis dizer até o ponto em que eu parei, me sinto extremamente ignorante por discordar. Eu vejo as pessoas interpretando as palavras dele e concordando e acrescentando e penso "gente, como eu sou uma mula". Se eu acordei num dia de ZUERA, a tendência é que eu vá simplificar ou mandar a merda. Se eu acordei com pouco remédio circulando no corpo, vou tentar entender e oferecer minha interpretação, mesmo achando que ela está mais que completamente errada. Adivinhem qual a situação atual. Pois é.
Concordo com a explicação sobre o mito. Com a importância dele pra sociedade, reconheço as consequências da falta que mitologia faz e interpretação e respeito aos símbolos exteriores as idéias se vivem desde a infância. Mas o amor parou nesse ponto. O herói aparentemente é o cara que abraça o social, se entrega a ele e se sacrifica para o bem do todo. Concordo novamente, mas o que é que o Campbell quer? Soa quase como se ele acreditasse que experimentar a vida e gozar de seu sentido só pode ser feito quando o indivíduo assume o papel de um herói, mesmo que numa amplitude menor que de um modelo nacional ou internacionalmente reconhecido. Aliás, o pensamento de que o sentido da vida tem que ser vivido e não pode ser encontrado numa busca, não me satisfaz, apesar de eu ter compreendido. Se a existência de um ser vai além de uma vida de mais ou menos 70 anos, então por quê voltar? Pra quê experimentar as mesmas coisas, de novo e de novo, já que o conhecimento mitológico é universal e só faz uso de palavras diferentes? Deve haver mais sentido na vida do que apenas vivê-la.
Só o sofrimento é capaz de ensinar? Só ele é capaz de libertar o indivíduo de modo que ele sirva a sociedade e encontre a plenitude no além-vida? Não gosto dessa linha de raciocínio. Não me apraz que eu precise me adaptar a realidade apesar de não concordar com ela do que tentar adaptar o exterior as minhas necessidades individuais. Soa egoísta e talvez realmente seja. Mas apesar de todos os padrões, do eterno retorno, do ciclo que é a vida, do chifre em espiral, as particularidades e diferenças são o que me tornam iguais aos outros e chances grandes são de que tudo pare aí. Pra resumir mais ou menos esse mimimi confuso, deixo um trecho de American Gods do Neil Gaiman.

No man, proclaimed Donne, is an island, and he was wrong. If we are not islands, we would be lost, drowned in each other’s tragedies. We are insulated (a word that means, literally, remember, made into an island) from the tragedy of others, by our island nature, and by the repetitive shape and form of the stories. The shape does not change: there was some human being who was born, lived, and then, by some means or another, died. There. You may fill in the details from your own experience. As unoriginal as any other tale, as unique as any other life. Lives are snowflakes: forming patters we have seen before, as like one another as peas in the pod (and have you ever looked at peas in a pod? I mean, really looked at them? There’s not a chance you would mistake one for another, after a minute’s close inspection) but still unique.

Without individuals we see only numbers: a thousand dead, a hundred thousand dead, ‘casualties may rise to up to a million’. With individual stories, the statistics become people — but even that is a lie, for the people continue to suffer in numbers that themselves are numbing and meaningless. Look, see the child’s swollen, swollen belly, the flies that crawl in the corners of his eyes, his skeletal limbs: will it make it easier for you to know his name, his age, his dreams, his fears? To see him from the inside? And if it does, are we not doing a disservice to his sister, who lies in the searing dust beside him, a distorted, distended caricature of a human child? And there, if we feel for them, are they now more important to us than a thousand other children touched by the same famine, a thousand other young lives who will soon be food for the flies’ own myriad squirming children?

We draw our lines around these moments of pain, and remain upon our islands, and they cannot hurt us. They are covered with a smooth, safe, nacreous layer to let them slip, pearl-like, from our souls without real pain.

Fiction allows us to slide into these other heads, these other places, and look out through other eyes. And then in the tale we stop before we die, or we die vicariously and unharmed, and in the world beyond the tale we turn the page or close the book, and we resume out lives.

A life, which is, like any other, unlike any other.


Obs.: Nem vou falar sobre a parte em que o Campbell não acredita em outros seres vivendo suas próprias mitologias ou um esquema parecido com o da vida humana em outros cantos do Universo. Não sei se tem como eu discordar mais.
Obs. II: Já fui pro twitter agora que terminei o texto e pensei mais e mais e vou acabar criando uns vinte adendos, mas por enquanto só esse: "Eu não quero me perder nas tragédias do outro mas ao mesmo tempo não quero que ele se perca em suas próprias tragédias. É aí que eu me entrego ao social e abdico do individual? É isso que vai me levar a experimentar a vida e viver o seu real sentido?" Eu volto a ser um herói, mesmo não querendo ou não acreditando nele?